sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Este blog foi pra España.
Talvez eu publique algo, talvez não.
Notícias no twitter.

Tyler Bazz

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Queda Livre

"E então, vamos?", sua amiga chamava, em frente ao aeroclube onde fariam as inscrições para o curso de paraquedismo. Era uma vontade recente, que ela nunca imaginou que teria, mas que surgiu forte e não a deixou pensar em outra coisa nos últimos meses. Até sonhava. Mas tão forte quanto a vontade era seu medo, e já dentro do aeroclube, com o formulário nas mãos, ela pensou na altura enorme e no vento e no paraquedas que podia não abrir e em tudo mais por pequeno que fosse que pudesse talvez dar errado e largou a caneta e foi embora e resolveu não pular. E por isso essa crônica acaba.


Tyler Bazz

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Diálogo

"Que bom que você entende."

"Não entendo."

"É, eu sei."

"Sabe."

"Mas não sei também se eu..."

"Eu também não."

"E o que eu faço?"

"Você pode..."

"Não sei. Fácil demais."

"Mesmo?"

"Difícil, na verdade, né?"

"Eu acho."

"Então?"

"Talvez você..."

"Talvez."

"Mas?"

"Parece que..."

"Parece."

"E você?"

"Eu?"

"É, você acha que..."

"Tenho quase certeza."

"Quase?"

"Quase. Eu não sei se..."

"É, então você entende."

"Ainda não."

"Mas você sabe que eu..."

"Sim, sei."

"E você?"

"Também, você sabe."

"Eu sei."

"Então?"

"Não sei. Acho que eu preciso..."

"Pode ser."

"Teria que ser, de qualquer jeito, né?"

"É."

E eram assim, sem dizer quase nada, algumas das melhores conversas que tinham.


Tyler Bazz

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Eterno

Se abraçaram, e sem perceber se beijaram. E fizeram juras de amor eterno, de mãos dadas, e disseram coisas que há tempos queriam ser ditas, entre carinhos. Se despediram - era preciso - e foram embora, sabendo que nunca se abandonariam. Estavam ligados. Por isso, pouco mais de uma hora depois, quando ele sentiu uma dor fortíssima no peito, sua primeira reação foi ligar e ver se ela estava bem.

Ela estava, e pediu - chorando, ele percebeu - para ele nunca ir embora.

Ele foi. Mas nunca saiu do lado dela.


Tyler Bazz

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sob o Capô

Viajava sozinha num carro que devia ter pouco mais que seus dezoito anos, de motor forte e pintura descascando, o carro. Os dezoito anos dela garantiam pele perfeita, macia, além de um motor também forte, por assim dizer. Cruzava a estrada acima da velocidade permitida, se divertindo com o desenho que os faróis dos carros no sentido inverso, congestionado, formavam, ouvindo no rádio rocks e souls e funks, cantando alto, quando o motor resolveu falhar e apagou, sem gasolina.

Manteve-se calma. Parou no acostamento sem diminuir o volume do rádio, só o da própria voz, e sentou no capô do carro, cantando baixinho, olhando os faróis e as estrelas, esperando ajuda. Alguns carros passaram sem parar, só iluminando a garota de olhos verdes sobre o motor, com uma saia que ia até os joelhos, os pés brincando no ritmo das músicas, os cabelos louros no ritmo do vento. Uma caminhonete parou, desceu um homem com seus mais de quarenta anos. Que ele não me dê dor de cabeça, ela pensou.

O homem se aproximou e a garota mostrou seu melhor sorriso. Percebeu que o cara ia gostar de conversa e contou a história toda: estava indo visitar a avó, que não via há muito tempo, sua mãe a deixou com o carro pela primeira vez, ela resolveu passar por algumas cidades no caminho, esqueceu completamente de encher o tanque, a gasolina acabou. Ele até tentou uma gracinha, que ela repeliu com classe. Perguntou então se ele não podia emprestar um pouco de combustível, o suficiente para chegar até o próximo posto, ela pagaria mais do que o preço normal. Ele encheu um galão e não cobrou nada. Ela agradeceu com seu segundo melhor sorriso e arrancou, certificando-se de que ele não a seguia.

No porta-malas do carro, sem desconfiar de nada, a mãe da garota, amordaçada e dopada, respirava com dificuldades; as mãos amarradas nas costas e a cabeça apoiada num saco plástico, onde o pai da garota descansava, esquartejado.


Tyler Bazz

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Primeira Vez

Enquanto ela chorava no quarto dele, ele sentava-se na sacada do apartamento, sétimo andar, após passar pela sala e ligar um disco dos Stones, e pegar uma garrafa de vinho na cozinha. Bebia goles rápidos, para se acalmar, enquanto o vento frio, gelado, o fazia tremer. Depois de pouco mais de um mês de namoro tiveram a primeira briga, por um motivo que não era tão bobo, mas que não merecia tanto. Só se ouvia a música no apartamento. Ela cruzou a sala no escuro, abriu a porta da sacada, e sentou-se encaixada nele, levando junto um cobertor. Trocaram goles de vinho e carinhos até que caíram no sono, ali mesmo, sentados na sacada. Foi a primeira vez que dormiram juntos.


Tyler Bazz

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Complicado

Uma pequena gota de suor se forma entre alguns fios de cabelo, proxima à orelha pequena e delicada, com dois brincos prateados. Cruza a lateral do rosto e desce rápido pelo perfumado pescoço. Desvia com destreza do tecido no ombro e, devagar, avança sobre a tão macia pele do seio direito. Na estreita clareira entre os seios ganha força e desce rápido por toda a barriga, arrepiando a pele, fazendo suspirar. Contorna com cuidado o umbigo e continua lentamente abaixo, até morrer, no primeiro contato com a calcinha de algodão.


Tyler Bazz

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O Protesto

A cena é a seguinte: no segundo dia de um congresso internacional, realizado em uma universidade brasileira, as pessoas que chegavam pela manhã viam no saguão de entrada do prédio um homem enrolado numa bandeira do Brasil. Parecia estar nu por baixo, vestindo só aquilo. Chamou a atenção de todos.

As pessoas começaram a parar e tentar descobrir do que se tratava. Contra o quê ele protestava. Alguns alunos cogitaram aderir, mesmo sem fazer ideia do que era. Acabaram desistindo. Não demorou muito e o local estava lotado de gente, o barulho só aumentava. A segurança foi chamada, mas uma ação contra aquele protesto pacífico poderia causar tumulto. O silêncio do homem nu enrolado na bandeira brasileira só foi quebrado quando a imprensa chegou ao local e uma repórter abriu caminho pela multidão, com cotoveladas, disparando perguntas assim que chegou ao homem: "Contra o quê é o protesto? Contra a influência estrangeira em nosso país? O que você quer dizer com isso? É um ato de patriotismo?"

"¿Patriotismo? No, que soy argentino y..."

Logo o saguão estava vazio, e todo mundo ficou sem entender.


Tyler Bazz

sábado, 26 de setembro de 2009

No Fim

Olhava fixamente para aquela foto dela, sua favorita, aquela que ele nunca se cansava de olhar, do sorriso aberto, espontâneo, feliz. Não conseguia parar de olhá-la, e nem queria. Não enquanto ainda não entendesse, ou aceitasse, que a tinha perdido. Os olhos dela pareciam pedir para que ele falasse, mas ele não falava, acreditava que ela não queria ouvir. Puxou o caderno e uma caneta, abriu em uma página limpa, começou a escrever.

"Você não pediu permissão pra entrar na minha vida. Quando vi, já era parte dela. É justo dizer que você nem podia pedir, nem avisar, nem nada. A gente não controlou nada disso e, quando vimos, já não éramos duas pessoas, mas sim uma dupla. Depois daquele começo de não gostar um do outro, viramos melhores amigos, já que não tínhamos idade pra ser nada além disso isso, e quando alcançamos a idade de ser algo mais, fomos.

Os melhores anos da minha vida foram com você. Tanto pelas milhares de vezes em que a gente concordou e pensou e agiu igual, tanto pelas outras milhares em que a gente discordou e brigou. Até nossas brigas eram boas, e me fazem falta agora. Tudo me faz falta agora. Cada pedaço do seu corpo, cada tom da sua voz, cada cheiro seu e cada resposta mal-humorada trocada de manhã. Não vale mais vir aqui e escrever que eu te amo e falar da sua importância na minha vida. Você não quer mais ouvir. Não vale a pena falar da minha tristeza, você só acreditaria vendo, e você deve saber que eu já chorei rios, mas sem deixar sair uma lágrima que fosse. Porque você me conhece melhor do que eu.

E exatamente por isso você não tinha o direito de ir assim, de repente, sem pedir permissão também. Sem me deixar entender, sem chance de voltar, sem nem mesmo me dizer alguma verdade. Você foi e eu fiquei, e agora só me sobrou essa foto sua, que eu não consigo parar de olhar e pensar em como seria e porque não foi e tudo mais. Não, você não tinha o direito. E eu quero te odiar por isso."

Com a primeira lágrima cruzando o rosto ele arranca a folha do caderno, dobra, deixa junto com uma flor sobre o túmulo e vai embora.


Tyler Bazz

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Contramão.

Sob o forte sol do deserto, o motor v8 queima gasolina e mostra sua força, tipicamente americana, nascida no fim dos anos 60 e já com mais de quinze anos, mas que ainda tem fôlego para cortar o país nas estradas antigas, rachadas como a tinta branca que cobre o carro. Pista e pneus se fundem, tornam-se uma coisa só. A música toca alto no rádio, a voz do locutor é a única companhia, inconstante, passageira. Atrás do volante, olhos vidrados no horizonte fixam um destino às vezes incerto, mas que está lá. O herói enfrenta os perigos e a solidão para fazer o que tem que fazer, seja lá o que for. Road movie.

Eis um puta começo pra história de estrada, tanto que não são nem um nem dois os exemplos parecidos na literatura, no cinema, até na música. Mas essa história aqui não tem muito a ver com nada disso. Sem motor potente, sem sol forte, sem deserto real. Nosso motorista não tem aqueles olhos vivos; por trás dos óculos de grau, uma vista míope olha com atenção o movimento à sua volta, esperto, sim, evitando qualquer tipo de acidente. Não há pressa, não há vontade de chegar. Nem mesmo os pedágios da estrada paulista incomodam. Diminuir não é um problema, parar não é um problema.

O sol acaba de se por no horizonte e a noite vem cruel. As músicas no rádio são tão ruins que ele prefere desligar, canta sozinho, em silêncio, seus blues favoritos. Dirige sem gosto, contra a própria vontade. Está indo quando queria voltar. Sente saudade do que fica pra trás, do que teve, do que poderia ter tido. Saudade não é bom. Chuva na estrada não é bom, atenção redobrada, parada para reabastecer. Café.

Vida besta, pensa. Que merda, que saco! O fraco motor do carro não atende ao desejo por mais velocidade. O carro, cheio de papéis, documentos, lixo, segue frágil sob a chuva. Queria fazer algo importante, queria saber o que fazer. Queria, mesmo, era ter coragem para dar meia volta e ir pra onde quer. Reflete e conclui que ninguém se daria ao trabalho de contar sua história. Não vale a pena, não tem nada demais. Aumenta um pouco a velocidade, quer chegar em casa.

E chega. Sem grandes problemas. Sexta à noite, fim de semana, só na segunda volta ao trabalho. Se joga na cama, não sente vontade de mais nada. Só de dormir. Vai conseguir, em algumas horas. E talvez estivesse certo, talvez sua história não seja lá tão interessante a ponto de ser contada.

Tyler Bazz

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Marcela - O Sonho

Certa noite, quando eu ocupava toda a cama, esparramado num sono gostoso, fui acordado pelo celular fazendo escândalo. Vi que era a Marcela e atendi:

"Quê?", grunhi.

"Quanto mede seu pau?"

"Quê?!", despertei.

"Quanto mede seu pau? Quantos centímetros?"

"Por que isso?"

"É que eu tava tendo um sonho erótico com você e acordei antes de ver. Daí eu queria saber se vale a pena tentar voltar pro sonho."

"Humm," entendi.

"E então?"

"Eu não me animaria."

Ela desligou. No dia seguinte até tentei puxar o assunto:

"Que história foi aquela de sonho erótico?"

"Desencana. Você não ia dar conta."


Tyler Bazz

sábado, 15 de agosto de 2009

No More Patience At All

“Eu tou cansado de vocês!”, berrava um cara no balcão da padaria. O cabelo desarrumado, a cara cansada, as olheiras fortes sob os olhos vidrados denunciavam que aquela manhã, para ele, não era o início de um dia, mas sim o fim de uma longa noite. “Todos sempre me olhando torto! Seu bando de... judgementals!" – Sim, enquanto umas dez pessoas trabalhavam, e mais de vinte tomavam seus cafés da manhã, Alex – é, eu o conheço – tinha um surto nervoso bilíngue.

Conhecendo-o, sinto certa obrigação de explicar a vocês alguns dos motivos que causaram tal ataque. Não por vocês, é claro, que se divertiriam muito mais só assistindo a cena, sem ouvir os dramas da vida do cara, you little bastards. Mas sim pelo Alex, já que não é justo deixar um trabalhador honesto, cidadão pagador de impostos, ter toda sua imagem manchada por um momento de fraqueza, ou em bom português, ficar com fama de louco.

Para começar do início e chegar rápido ao que me interessa: Alex não foi uma criança muito agitada e teve uma adolescência normal, com todas as depressões, crises e bebedeiras de uma adolescência normal. Passou ileso, ou pelo menos sem grandes abalos, pelos quatro anos da faculdade de jornalismo e, quando se formou, iniciou o que todos, inclusive ele, tinham certeza que seria uma carreira de sucesso. Começou por baixo, trabalhando em meios pequenos, com estágios em jornais locais do interior. Então se mudou para São Paulo, já alcançando algumas melhorias na vida profissional, e aos 25 anos foi contratado por um dos maiores grupos midiáticos do país. Foi quando sua ruína começou.

“Eu trabalho! Trabalho muito!”

“Porra, Alex! Eu tô tentando conta a história aqui. Posso?”

“Eles não sabem é de nada!”

“Mas eu sei, cacete! Eu posso explicar isso tudo, até seu bafo de conhaque eu explico, mas você tem que calar a boca!"

É, o Alex bebeu um pouco demais, mas não tirem conclusões precipitadas, ok? Enfim, ele foi contratado. Depois de um tempo se tornou o responsável por alimentar a seção de últimas notícias do site do principal jornal do grupo. Durante a madrugada. Tinha que ficar a noite toda ligado nos sites das agências de notícias espalhadas pelo mundo, escolhendo o que iria para o site, traduzindo o que vinha em inglês - hence o bilinguísmo -, escrevendo o que julgasse necessário... Tinha poder para decidir e raramente precisava pedir qualquer tipo de autorização. Passava boa parte do tempo sozinho na redação, e quando aparecia alguém, não tinha tempo pra conversa. A melhor e mais óbvia companhia se fez cada vez mais presente. Cafeína.

Alex passou a tomar enormes quantidades de café todas as noites. Começou com um copo de vez em quando, depois outros mais. Perdia a conta de quantas vezes ia até a máquina de café da redação e voltava. Percebeu que andava gastando copos descartáveis demais e, aliando isso ao fato de os copos serem pequenos, comprou uma caneca grande, que não diminuiu as viagens até a cafeteira, mas aumentou a quantidade de bebida consumida. Toda manhã Alex lavava a caneca e guardava-a em sua gaveta. Começou a levar para o trabalho diferentes tipos de café, em pouco tempo conhecia todas as marcas disponíveis no supermercado. Bebia porque não conseguia não beber, mas também porque gostava.

Com tanta cafeína no sangue, era óbvio que Alex não conseguiria dormir logo que chegasse em casa todas as manhãs. No início isso não foi um problema, é verdade, porque Alex tinha uma namorada que não saía para trabalhar antes das 9, e ele chegava sempre antes das 8, então quase diariamente ele podia se cansar o suficiente para dormir tranquilamente até o meio da tarde. A mulher era quase insaciável e ele, é claro, nunca chegou nem perto de achar isso ruim. Infelizmente, para o Alex, numa raríssima noite de folga no trabalho ele resolveu fazer uma surpresa para a moça em seu apartamento. Saiu normalmente para o que seria o trabalho, comprou flores, fez uso da chave que tinha do apartamento dela, entrou em silêncio e encontrou-a, digamos, com a boca mais ocupada do que ele gostaria.

"Aquela vaca! Puta!"

"É, todo mundo sacou."

"Nunca quis me chupar! E tava lá, se lambuzando toda!"

"Ok, cara. Sem detalhes. Já passou, não passou?"

"Eu gostava dela, cara!"

"É, é, mas ela gostava de chupar os paus alheios, aceite."

"Porra. Não precisa falar assim comigo também, né. O que eu te fiz?"

"Ok, ok, desculpa. Mas não chora. Isso. Posso continuar a história? Prometo que não falo mais dela..."

"Aquela vaca! Vai, vai... continua."

O incidente acima mencionado ferrou com a vida de Alex por um tempo, mas as coisas foram se acertando. A grande herança de tudo aquilo foi que agora ele não tinha mais como gastar a energia proporcionada por todo o café ingerido, o que começou a atrapalhar, muito, sua vida profissional. Alex chegava em casa por volta das 7:30 da manhã, deitava, e não dormia. Ouvia o rádio, assistia tv, às vezes chegava ao cúmulo de descer até a banca e comprar um jornal, cheio de notícias que para ele já eram velhas. O sono só chegava após o meio-dia, e quando acordava Alex ou tinha dormido de menos, o que piorava muito sua performance no trabalho, ou dormido demais, o que o deixava atrasado e o fazia levar fumo do chefe.

Numa cinza manhã de sol, Alex encontrou o que lhe pareceu ser a solução do problema. Voltando para casa entrou em uma padaria, dessas que são padaria, lanchonete, bar, restaurante, pizzaria, ..., procurando algo para comer. Viu um senhor bebendo algo e resolveu que queria também. O whisky, horrível, desceu rasgando a garganta e contorcendo o rosto de Alex, que pediu uma segunda dose. Quando chegou em casa, mal conseguiu comer e já estava largado na cama em sono profundo. A bebida trazia-lhe o sono que antes o cansaço o fazia ter. Alex passou a, todas as manhãs, parar em algum lugar no caminho de volta pra casa e beber uma dose. Variava os lugares, conhecia uma ou outra pessoa, trocava dois bom dias e ia embora já sentindo as pálpebras pesadas.

O que Alex não imaginou que teria que aguentar foi a forma como as pessoas passaram a encará-lo. Sejamos sinceros, no entanto, que ele não imaginou porque não quis, ou porque não teve tempo, já que era óbvio. A cada manhã aumentavam os olhares que o desaprovavam, acusavam, culpavam. Ninguém sabia o que acontecia, o que fazia aquele jovem de barba rala estar ali, bebendo àquela hora da manhã, ninguém. Mas todo mundo julgava, e já que todo mundo é correto e cristão, Alex era um beberrão do diabo.

"Tudo hipóquitra!"

"Quê?"

"É! Isso mesmo..."

"Hipócrita, talvez?"

"É!”

“É, eu sei, todo mundo sabe."

"Todo mundo é o caralho!"

"Hum, é, ok. Todo mundo que tem um mínimo de noção."

"Ninguém tem porra nenhuma! Ah lá! Fica todo mundo olhando! Ninguém sabe é de nada!"

E certa manhã ele não aguentou. Perdeu a paciência e resolveu botar a boca no mundo.


Tyler Bazz

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Nomes Compostos

Na fila do banco, a mocinha de trás, que depois ficaria brava comigo, dizia:

"Então, o nome do Lui é Luís Fernando. Não, nem sei porque Lui, mas é Luís Fernando. Engraçado que todo mundo tem nome composto naquela família. É Luís Fernando, João Guilherme... só a Fernanda e a Ana Paula que não."

Não deu pra segurar o riso.


Tyler Bazz

terça-feira, 28 de julho de 2009

As Árvores-Gente da Guerra-Fria

Em meados dos anos 50, uma década que sobrevivia ao século 20 sem uma grande guerra, ou uma grande depressão, o mundo vivia um de seus momentos mais brilhantes, e não só pela extrema quantidade de brilhantina encontrada nos topetes dos jovens da época. Impulsionadas pela prosperidade econômica, principalmente a norte-americana, indústria, cultura, ciência e tecnologia alçavam voos cada vez mais altos. Ao som de Elvis Presley o mundo se preparava, sem saber, para os Beatles e, de alguma forma já sabendo, para o Vietnã.

Enquanto a ciência se esforçava na criação de armas que pudessem não só destruir, mas também assustar inimigos de guerra, ocorreram algumas descobertas que de fato ajudaram a população mundial, como o transplante de órgãos, ou vacinas contra doenças como a poliomelite. Um cientista canadense, radicado nos Estados Unidos, criou por acaso, ao fazer alguns testes biológicos, uma substância que tinha o poder de dar vida humana a vegetais.

A descoberta foi mantida em segredo pelo governo durante alguns anos. Mas após milhares de testes decidiu-se que o invento não causaria dano à sociedade e a notícia foi recebida com alvoroço em todo o país, principalmente pelas crianças. Em pouco tempo o produto que dava vida a árvores era comercializado em larga escala, com um único e incansavelmente repetido aviso: quando a árvore morresse, deveria ser queimada em um prazo máximo de três dias. Não havia indicação especial sobre o que deveria ser feito das cinzas das plantas.

Praticamente todas as famílias compraram o produto. No quintal dos fundos de cada casa nos Estados Unidos podia-se achar uma árvore "gente". Os vegetais não ganhavam habilidades como andar ou se locomover, nem precisavam comer nada além da tradicional alimentação feita pelas raízes, mas se tornavam capazes de pensar, falar, e desenvolver sentimentos humanos. Aos poucos ia crescendo uma geração de crianças que tinham uma árvore como melhor amiga. Árvores com quem falavam até tarde, sob as estrelas; árvores que se tornavam membros da família, sempre fixos no quintal, guardando a casa. Árvores que morriam, mais cedo que as comuns, e deixavam uma cicatriz de saudade no rosto de cada pessoa. A indicação de que as árvores deviam ser queimadas em até três dias após a morte era seguida à risca e nenhum incidente havia sido registrado com relação às árvores. Até certo dia.

Em uma cidade da Nova Inglaterra, uma árvore morreu enquanto a família viajava para visitar parentes no sul. Não seria um problema se a casa estivesse vazia, pois sem dúvida algum vizinho estaria encarregado de avisar a família em qualquer emergência ou coisa do tipo, mas um dos filhos do casal, de dezenove anos, havia se recusado a viajar em ficou em casa, para se divertir com os amigos da cidade. Uma mistura de revolta, falta de preocupação, e tentativas frustradas todas as noites de chegar além do soutien de sua namorada fizeram com que o garoto se esquecesse, talvez de propósito, da recomendação sobre o fim que a árvore devia levar. Três dias se passaram e o tronco sem vida, os galhos secos e a folhas cada vez mais escassas continuavam em pé no quintal.

Foi durante a noite que a transformação aconteceu. De dentro de casa, o garoto ouviu o som dos galhos se mexendo e, assustado, lembrou-se que não havia feito nada com a árvore morta. Quando chegou ao fundo do terreno seu sangue congelou com o que viu: as raízes da árvore estavam fora da terra e funcionavam como pernas, os galhos se estendiam como braços à procura de algo e, no tronco, os dois olhos, antes amáveis, tinham um aspecto de ira e fome. Os incessantes avisos para que as árvores fossem queimadas não eram à toa, afinal. Os olhos do garoto, arregalados, viam algo que nunca imaginara ver: uma árvore morta-viva, uma árvore zumbi.

A árvore foi até a entrada da casa, arrancou um pilar de madeira e o levou com fúria à boca. O garoto, apavorado, percebeu que aquilo fez com que a árvore crescesse alguns centímetros, e tentou impedir o monstro de destruir sua casa, mas um dos galhos o jogou para longe, fazendo-o sangrar. Quase desacordado, no chão, ele pôde ver a árvore tirar mais dois pedaços da casa, enquanto ouvia a árvore do terreno ao lado gritar por socorro.

Alguns vizinhos acordaram com o barulho e já se esforçavam para conter a árvore-zumbi, mesmo sem saber como. O monstro se dirigiu ao quintal da casa ao lado e por alguns minutos manteve suas raízes em contato com a árvore do vizinho, que continuava gritando por ajuda. Logo a árvore também tinha ira no olhar, e erguia-se sobre as raízes à procura de madeira. Um homem deu tiros com sua espingarda, em vão, outro tentava acertá-las com um machado, mas era mantido à distância pelos fortes galhos.

As árvores cresciam de tamanho conforme comiam pedaços das casas de madeira. E a cada instante o número de zumbis aumentava. Alguém acendeu uma tocha, mas as árvores eram fortes demais e não seriam queimadas com o escasso fogo e a pouca força da pequena cidade. Em pouco tempo a cidade estava destruída, e enquanto os moradores tentavam transmitir sinais de socorro, alguns por telefone, outros fugindo com seus carros, as árvores-zumbi tomavam a estrada, aumentando em número e tamanho, levando terror à próxima cidade.


Tyler Bazz

sábado, 18 de julho de 2009

Fazendo Errado.

Não queria outra noite de sábado sozinho, bêbado e triste, resolvi sair. Precisava ver gente nova, desprezível, com quem eu nunca falaria, gente pra ser observada e detestada. Sem precisar pensar muito, fui ao shopping.

Estava lotado, cheio de pré-adolescentes fingindo ser adultos, adultos fingindo ser mais jovens, velhos fingindo que gostavam de estar ali. Minha cara mal-humorada - ou minha camiseta? - chamava mais atenção do que eu gostaria.

Perdi uma meia hora sentado na praça de alimentação, comendo um lanche e maldizendo umas crianças que não paravam de correr e gritar; malditos, na verdade, os pais. Passei por uma livraria, e na outra acabei gastando o que não podia - dois livros na sacola e nada na carteira. Mesmo sem dinheiro, não consegui vencer o cheiro de pipoca que vinha do cinema.

Cheguei lá e tinha mais que no resto do shopping. Fiquei sem graça quando vi, numa das filas, uma menina conhecida, com umas amigas, (eu gosto dela e ela sabe disso, e eu quero sumir cada vez que a vejo), (ou, ela nem lembra direito quem eu sou), e fui rápido para a fila da pipoca. Me distraí com os cartazes dos filmes e, quando vi, ela (ela!) estava parada ao meu lado, sorrindo:

"Oi!", linda, linda, linda!

"Oi...", respondi, quase sem voz.

"Vai ver que filme?"

"Nenhum", ela (ela!) me olhou sem entender. "Vim só comprar pipoca", expliquei.

"Ah, tá...", ainda me olhava um pouco estranho. Vi as amigas dela começarem a andar, olhando para nós.

"A fila tá andando", avisei.

"Ah, é, então eu já vou", ela (ela!) sorriu de novo antes de ir. "Até outro dia", linda, linda, linda, linda, linda!

Fiquei com uma sensação ruim pelo resto da vida.


Tyler Bazz

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Reparando.

E aquela menina loira, bonita e cheirosa que ia trabalhar sempre no mesmo ônibus que eu sumiu de repente. Teria ela morrido, me perguntei, ou mudado de cidade, ou perdido o emprego. Criei teorias e hipóteses para explicar a mim mesmo o sumiço. Precisei de seis meses para descobrir que ela só tinha mudado a cor do cabelo.


Tyler Bazz

domingo, 28 de junho de 2009

Marcela - Despertando Paixões

Por um tempo, comecei a achar que a Marcela estava sendo perseguida. Onde ela fosse, nos shoppings, nos bares, lá estava um menino com os olhos fixos nela. Me certifiquei de que não era um ataque de ciúmes meu e fui falar com a Marcela, avisar para ela ter cuidado, essas coisas...

"Sabe aquele cara ali, Má?"

"Hum..."

"Faz dias já que ele sempre aparece onde você está. Não tira os olhos de cima de você. Outro dia no cinema ele sentou bem atrás da gente..."

"É."

"Você já tinha reparado?"

"Querido... tem um menino me seguindo! Óbvio que eu reparei."

Perguntei então se ela não ficava com medo, disse para ela ter cuidado, não andar sozinha à noite. Ela estava bem tranquila, e quase conseguiu me convencer de que o cara era meio que apaixonado por ela. A Marcela, sendo ela, parecia gostar da situação.

"Ele é bonito, não é?"

"Tá brincado que você tá afim de algo?!"

"Não sei... mas eu acho ele fofo."

Como se tivesse ouvido nossa conversa, o perseguidor se aproximou de nós e abriu o coração. Disse à Marcela que ela era linda, que não conseguia tirá-la da cabeça desde a primeira vez que a viu... Os olhos dele brilhavam e a Marcela o olhava, sorrindo. Ela então respirou, pegou na minha mão e disparou contra o garoto:

"Você é louco, menino? Não tá vendo que eu tenho namorado? Ridículo! Nunca que eu ia querer nada com alguém igual você! Agora vê se para de me perseguir antes que eu chame a polícia!"

O rosto do menino ficou vermelho e ele saiu andando rápido, quase em desespero; eu fiquei com a já conhecida cara de quem não entendeu nada, mas não estava surpreso; a Marcela soltou imediatamente minha mão e levantou, quase rindo: "Quero comer pizza, vamos?"


Tyler Bazz

domingo, 21 de junho de 2009

Hotel Quiroga

agradecimentos ao Bonaldi e ao Danilo,
que participaram de todo o nonsense.


O Hotel Quiroga oferece o melhor e mais privado ambiente para sua morte.

Localizado no bairro mais perigoso da cidade, o Hotel Quiroga é de difícil acesso, e em momento algum pode-se garantir que você chegue ao local em segurança, sem ser atingido por uma bala perdida ou envolver-se em um capotamento.

Os funcionários do Hotel Quiroga andam todos armados e são conhecidos por sua falta de senso de humor e pavio curto. Qualquer comentário pode ser interpretado como extremamente ofensivo. Além disso, mantemos programas de recrutamento em presídios de segurança máxima e manicômios, sempre buscando excelência em nosso staff.

Nossa cozinha conta com facas, cutelos e outros objetos perfurantes, além de um vasto cardápio que atende a todos os tipos de alergia (também oferecemos pacotes sem refeições ou qualquer tipo de alimentação incluída).

As suítes são nosso grande diferencial, com fios desencapados e pregos enferrujados por todo o lugar. No banheiro temos uma forca pronta e uma banheira ideal para afogamentos, além de navalhas e seringas que podem ser encontradas no armário. As camas são extremamente desconfortáveis, impedindo que se durma, e todo o incômodo pode chegar ao fim graças ao revólver habilmente posicionado sobre o criado-mudo. O frigobar conta com doses de cianureto e arsênico, além de garrafas de whisky e vodka, caso sua ideia seja morrer como um rockstar. Localizados sempre acima do terceiro andar, todos os quartos têm janelas grandes e convidativas, com vista para um lugar melhor.

Aceitamos reservas para todo o ano (inclusive o Natal), que podem ser feitas por telefone ou internet. Mas mantemos também quartos emergenciais disponíveis. Afinal, nunca se sabe quando um surto depressivo virá. O pagamento, por motivos óbvios, é sempre adiantado.

Nós, do Hotel Quiroga, servimos bem para servir uma vez só.
Venha e descanse em paz! (ou não, se você crê na bíblia)

Hotel Quiroga
It’s to die inn!


Tyler Bazz

(Se você não entendeu, dê uma pesquisada sobre a vida e a obra do escritor uruguaio Horácio Quiroga. É coisa da melhor qualidade.)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Um Texto Ridículo.

Would you fall in love with someone who's just like you?
He'd always thought he wouldn't.

Não se sabe exatamente quando foi que começou. Que hoje em dia, com essa história de internet, vê-se muita coisa, muito rápido, mas o que vale mesmo é o contato pessoal direto (alguém acredita nisso?). Ela diz que foi lá atrás, antes mesmo de tudo começar, será? Ele tem certeza quando foi. Já tinham avisado, "ela é bonita, você vai gostar dela". E do momento em que ele a viu, não conseguia nem queria mais deviar os olhos. E foram dias (será?) olhando, de longe.

Então o contato pessoal direto tornou-se realmente direto. Já sabiam-se os nomes, as terras natais, tudo o que precisa-se saber. Era a hora da sesta, era calor, era ela tão comunicativa e simpática que ele chegou à mais óbvia e nada paranoica das conclusões: "ela me odeia."

A certeza só se confirmou no tempo seguinte. As horas à toa banhadas em litros e litros de Coca, as reclamações sem fim, a preguiça que assusta os desavisados, tudo deixava cada vez mais claro o ódio que nascia. Era tanto ódio que chegava a criar ciúmes. (de quê mesmo?)

Eram tão, tão, tão parecidos em tudo, que ficaram ali, sem fazer nada. Mas já dizia ele (e ela, provavelmente): a beleza está na lerdeza. Há vantagem em demorar três meses para fazer o que qualquer um resolve em meia hora. Já começaram com três meses de experiência em gostar um do outro.

E se começou lento, que agora seja rápido. Porque já se sabe que é. E que é como é. E que (tomara!) é certo e vai durar até...

E ele, que sempre se achou tão chato, insuportável, quando achou uma menina tão, tão, tão parecida, se apaixonou. Tanto que todo mundo dizia que ele andava mais feliz. Se apaixonou, não por ele mesmo, nem por uma menina muito parecida com ele, mas por ela, e só por ela, do jeito que ela é.


Tyler Bazz
(e Feliz Dia dos Namorados. Não pra vocês, mas pra ela e pra mim.)
(deu pra perceber que o texto é pessoal? :D)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Previsões

Uma velhinha com cara de simpática, mas de expressão preocupada, olhou bem nos meus olhos e disse:

"Totalmente nublado, tempestades e risco de furacões."

"Previsão do tempo?", perguntei.

"Da vida", ela respondeu.

"E teremos sol no fim da tarde?"

"Não."


Tyler Bazz